quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ESTUDO DA GÊNESE

A GÊNESE
SEGUNDO O ESPIRITISMO
CAPÍTULO PRIMEIRO

1. – Pode-se considerar o Espiritismo uma revelação? Neste  caso, qual é o seu caráter? Sobre o que está fundada a sua autenticidade? A quem e de que modo foi feita? A Doutrina Espírita é uma revelação, no sentido teológico da palavra, quer dizer, é, em todos os pontos, o produto de um ensinamento oculto vindo do Alto? É absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade pronta, a revelação não teria por efeito impedi-los de fazerem uso de suas faculdades, uma vez que lhes pouparia o trabalho da pesquisa? Qual pode ser a autoridade do ensinamento dos Espíritos, se eles não são infalíveis e superiores à Humanidade? Qual a utilidade da moral que pregam, se essa moral não é outra senão a do Cristo, que se conhece? Quais são as verdades novas que nos trazem? Tem o homem necessidade de uma revelação e não pode encontrar, em si mesmo e em sua consciência, tudo que lhe é necessário para se conduzir? Tais são as questões sobre as quais importa nos fixemos.
2. – Definamos, primeiro, o sentido da palavra revelação.
Revelar, do latim revelare, cuja raiz é velum, véu, significa literalmente sair de sob o véu, e no figurado: descobrir, fazer conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar, a mais geral, diz-se de toda coisa ignorada que vem à luz, de toda idéia nova que se co loca na pista daquilo que não se conhecia.
se dizer que há, para nós, revelação incessante; a Astronomia nos revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a Geologia, a formação da Terra; a Química, as leis da afinidade; a Fisiologia, as funções do organismo, etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são reveladores.
3. – O caráter essencial de toda revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo, é dar a conhecer um fato; se a coisa é falsa, não é um fato e, por conseqüência, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos não é revelação; se é atribuída a Deus, e Deus não podendo nem mentir e nem enganar, ela não pode emanar dele; é preciso considerá-la como produto de uma concepção humana.
4. – Qual é o papel do professor, diante de seus alunos, se não o é de um revelador? Ensina-lhes o que não sabem, o que não teriam nem tempo e nem possibilidade de descobrirem por si mesmos, porque a ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que deram, cada um, o seu contingente de observações, e das quais se aproveitam aqueles que vêm após eles. O ensinamento é, pois, em realidade, a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem a outros que as ignoram, e que, sem isso, as teriam sempre ignorado.
5. – Mas o professor não ensina senão o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que descobriu por si mesmo: é o revelador primitivo; produz a luz que, gradualmente, se vulgariza. Onde estaria a Humanidade sem a revelação dos homens de gênio, que aparecem de tempos em tempos?
Mas, o que são os homens de gênio? Por que são homens de gênio? De onde vêm? Em que se convertem? Notemos   que, a maior parte, traz, em nascendo, faculdades transcendentais e conhecimentos inatos, que um pouco de trabalho basta para desenvolver. Pertencem, realmente, à Humanidade, uma vez que nascem, vivem e morrem como nós. Onde, pois, haurem esses conhecimentos que não puderam adquirir em sua vida? Dir-se-á, como os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral  em maior quantidade, e de melhor quantidade?  Neste caso, não teriam mais mérito do que um legume maior e mais saboroso do que um outro.
Dir-se-á, com certos espiritualistas, que Deus os dotou, de uma alma mais favorecida do que a do homem comum? Suposição inteiramente ilógica, uma vez que acusaria Deus de parcialidade. A única solução racional desse problema está na preexistência da alma e na pluralidade as existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu por mais tempo; que, por conseqüência, mais adquiriu e progrediu mais do que aqueles que estão menos avançados. Em se encarnando, traz o que sabe, e como sabe muito mais do que os outros, sem ter necessidade de aprender, é o que se chama um homem de gênio. Mas o que sabe não deixa de ser o fruto de um trabalho anterior, e não o resultado de um privilégio. Antes de nascer, era, pois, Espírito adiantado; ele se reencarna, seja para fazer os outros aproveitarem o que sabe, seja para adquirir mais.
Os homens progridem, incontestavelmente, por si mesmos e pelos esforços de sua inteligência; mas, entregues às suas próprias forças, esse progresso é muito lento, se não são ajudados por homens mais avançados, como o escolar o é por seus professores. Todos os povos tiveram os seus homens de gênio, que viveram, em diversas épocas, para dar-lhes impulso e tirá-los da inércia.
6. – Desde que se admite a solicitude de Deus para com suas criaturas, por que não se admitir que Espíritos capazes, pela sua energia e a superioridade de seus conhecimentos de fazer a Humanidade avançar, se encarnem, pela vontade de Deus, tendo em vista ajudarem o progresso em um sentido determinado; que recebam uma missão igual a um embaixador que recebe uma de seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm fazer, senão ensinar aos homens as verdades que estes ignoram, e que teriam ignorado ainda durante longos períodos, a fim de lhes dar um impulso com a ajuda do qual possam se elevar mais rapidamente? Esses gênios, que aparecem através dos séculos como estrelas brilhantes, que deixam, depois deles, um longo rastro luminoso na Humanidade, são missionários, ou, se o quiserem, messias. As coisas novas que ensinam aos homens, seja na ordem física, seja na ordem filosófica, são revelações.
científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que são um dos elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos cujas idéias atravessaram os séculos.
7. – No  sentido  especial  de  fé religiosa, a revelação se diz, mais particularmente, das coisas espirituais que o homem
 não pode saber por si mesmo, que não pode descobrir por meio de seus sentidos, e cujo conhecimento lhe  é  dado por Deus, ou por seus mensageiros, seja por meio da palavra direta, seja pela inspiração. Neste caso, a  revelação   é   sempre feita por homens privilegiados, designados  sob o nome de profetas ou messias, quer dizer, enviados, missionários, com a missão de transmiti-la aos homens. Considerada sob este ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta; é aceita sem controle, sem discussão.
8. – Todas as religiões tiveram os seus reveladores, e embora estivessem longe de haver conhecido toda a verdade, tiveram a sua razão de ser providencial; porque eram apropriados ao tempo e ao meio onde viviam, ao gênio particular dos povos aos quais falavam, e aos quais eram relativamente superiores. Malgrado os erros de suas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos, e, por isso mesmo, semeado os germens do progresso que, mais tarde, deveriam desabrochar, ou desabrocharão um dia ao sol do Cristianismo. É, pois, erradamente que se lhes lança anátemas em nome da ortodoxia, porque um dia virá no qual todas essas crenças, tão diferentes pela forma, mas que respousam, em realidade, sobre um mesmo princípio fundamental: – Deus e a   imortalidade  da alma – se fundirão em uma grande e vasta   unidade,   quando a razão houver triunfado sobre os preconceitos.
Evangelho Segundo o Espiritismo: Haverá falsos Cristos e falsos profetas."
9. – Há revelações diretas de Deus para os homens? É uma pergunta que não ousaríamos resolver, nem afirmativa nem negativamente, de maneira absoluta. Isso não é radicalmente impossível, mas nada nos dá a sua prova certa. O que não poderia ser duvidoso, é que os Espíritos, os mais próximos de Deus pela perfeição, se penetram de seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica à qual pertençam e o grau de seu saber pessoal, podem haurir suas instruções em seus próprios conhecimentos, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, até mesmo dos mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, puderam ser, por vezes, tomados pelo próprio Deus.
Essas espécies de comunicações nada têm de estranhas para quem conhece os fenômenos espíritas, e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela contemplação dos Espíritos instrutores nas visões e aparições, seja em sonho, seja no estado de vigília, como se vêem muitos exemplos delas na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato dizer que a maioria dos reveladores são médiuns inspirados, audientes ou videntes; de onde não se segue que todos os médiuns sejam reveladores, e ainda menos intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros.
10. – Somente os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la; mas sabe-se agora que os Espíritos estão longe de ser todos perfeitos, e que existem os que se apresentam sob falsas aparências; isso foi o que levou São João a dizer: "Não creiais em todo Espírito, mas vede antes se os Espíritos são de Deus." (Ep. 1ª, cap. IV, v. 4).
origem, ao passo que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, freqüentemente em contradição com a lei do Sinai, são a obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo se abrandando, suas leis, por si mesmas, caíram em desuso, enquanto que o Decálogo permaneceu em pé como o farol da Humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício, ao passo que aboliu as outras leis. Se elas fossem obra de Deus, guardar-se-ia de tocá-las. O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo, e aí está a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.
11. – Uma importante revelação se cumpre na época atual: a que nos mostra a possibilidade de comunicar com os seres do mundo espiritual. Esse conhecimento não é novo, sem dúvida; mas permaneceu, até os nossos dias, de certa forma, no estado de letra morta, quer dizer, sem proveito para a Humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações as havia sufocado sob a superstição; o homem era incapaz de delas tirar alguma dedução salutar; estava reservado à nossa época desembaraçá-la de seus acessórios ridículos, compreender-lhe a importância, e dela fazer sair a luz que deverá iluminar a rota do futuro.
12. – O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível, que nos envolve e no meio do qual vivemos sem disso desconfiarmos, as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam, e, em conseqüência, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.
observação e de pesquisa; que não renunciam ao seu juízo e ao seu livre arbítrio; que o controle não lhes é proibido, mas, ao contrário, recomendado; enfim, que a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; que é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos colocam sob seus olhos, e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, e das quais ele mesmo tira as conseqüências e aplicações. Em uma palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que sua fonte é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos, e que a elaboração resulta do trabalho do homem.
14. – Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente do mesmo modo que as ciências positivas, quer dizer, aplica o método experimental. Fatos de uma ordem nova se apresentam e não podem se explicar pelas leis conhecidas; observa-os, compara-os, analisa-os, e, dos efeitos remontando às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz suas conseqüências e procura as suas aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim não colocou como hipótese, nem a existência e intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da Doutrina; concluiu da existência dos Espíritos quando essa existência se deduziu, com evidência, da observação dos fatos; e assim os outros princípios. Não foram os fatos que vieram confirmar a teoria, mas a teoria que veio, subseqüentemente, explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiristismo é uma ciência de observação, e não o produto da imaginação. As ciências não tiveram progresso sério senão depois que o seu estudo se baseou no método experimental; mas, até esse dia, acreditou-se que este método não era aplicável senão à matéria, ao passo que o é, igualmente, às coisas metafísicas.
ainda neste mundo, e crendo aplicarem-se às suas ocupações ordinárias, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade dos fatos análogos provou que não era uma exceção, mas uma das fases da vida espírita; ela permitiu estudar  todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; reconhecer que essa situação é, sobretudo, própria dos Espíritos pouco avançados moralmente, e particular a certos gêneros de morte; que é temporária, mas pode durar dias, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Ocorre  o  mesmo  com todos os outros princípios da Doutrina.
16. – Do mesmo modo que a ciência, propriamente dita, tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este último princípio é uma das forças da Natureza, que reage, incessantemente, sobre o princípio material, e reciprocamente, disso resulta que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a ciência se completam um pelo outro; a ciência sem o Espiritismo se encontra na impossibilidade de explicar certos fenômenos unicamente pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a ciência, lhe faltaria apoio e controle. O estudo das leis da matéria deveria preceder ao da espiritualidade, porque é a matéria que fere, primeiramente, os sentidos. O Espiritismo, vindo antes das descobertas científicas, teria sido obra abortada, como tudo o que vem antes de seu tempo.
17. – Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; nascem uma das outras, na medida que encontram um ponto de apoio nas idéias e nos conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras das que foram cultivadas, permaneceu nos erros da infância até o momento em que a física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a química, nada podendo sem a física, deveria sucedê-la de perto, para, em seguida, marcharem as duas de acordo, apoiando-se uma sobre a outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia não se tornaram ciências sérias senão com a ajuda das luzes trazidas pela física e pela química. A geologia, nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, teria se ressentido dos seus verdadeiros elementos de vitalidade; não poderia vir senão depois.
18. – A ciência moderna mostrou a verdade sobre os elementos primitivos dos Antigos, e de observação em observação, chegou à concepção de um único elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, por si mesma, é inerte; não tem vida, nem pensamento, nem sentimento; é-lhe necesária a sua união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou este princípio, mas o principal, o tem demonstrado por provas irrecusáveis; estudou-o, analisou-o e demonstrou a sua ação evidente. Ao elemento material veio juntar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis os dois princípios, as duas forças vivas da Natureza. Pela união indissolúvel destes dois elementos, explica-se, sem dificuldade, uma multidão de fatos até agora inexplicáveis (1).
O Espiritismo, tendo por objeto de estudo um dos dois elementos constitutivos do Universo, toca, forçosamente, na maioria das ciências; não poderia vir senão depois da sua elaboração, e nasce pela força das coisas, da impossibilidade de tudo se explicar somente com a ajuda das leis da matéria.
19. – Acusa-se o Espiritismo de parentesco com a magia e a feitiçaria; mas esquece-se que a astronomia tem por primogênita a astrologia judiciária, que não está longe de nós; que a química é filha da alquimia, da qual nenhum homem sensato ousaria se ocupar hoje. Ninguém nega, entretanto, que estivesse na astrologia e na alquimia o germe das verdades de onde saíram as ciências atuais. Malgrado as suas fórmulas ridículas, a alquimia encaminhou para a descoberta dos corpos simples e da lei das afinidades; a astrologia se apoiava sobre a posição e o movimento dos astros, que havia estudado; mas, na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo o Universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos quais a superstição emprestou uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton, Kepler fizeram conhecer essas leis, que o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um

olhar que certas pessoas acharam indiscreto, os planetas nos apareceram como simples mundos semelhantes ao nosso, e todo o alicerce do maravilhoso desabou.
Ocorre o mesmo com o Espiritismo, em relação à magia e à feitiçaria; estas se apoiavam também sobre a manifestação dos Espíritos, como a astrologia sobre o movimento dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, misturavam, a essas relações, práticas e crenças ridículas, às quais o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação, mostrou a verdade. Seguramente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que a que existe entre a astronomia e a astrologia, a química e a alquimia; querer confundi-las é provar não saber delas nem a primeira palavra.
20. – Só o fato da possibilidade de comunicar-se com os seres do mundo espiritual tem conseqüências incalculáveis da mais alta gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela, e que tem tanto mais importância quanto atinge a todos os homens, sem exceção. Esse conhecimento não pode deixar de trazer, em se generalizando, uma modificação profunda nos costumes, no caráter, nos hábitos e nas crenças que têm tão grande influência sobre as relações sociais. É toda uma revolução que se opera nas idéias, revolução tanto maior, quanto mais poderosa, quando não está circunscrita a um povo, a uma casta, mas que atinge, simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.
É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado a terceira das grandes revelações. Vejamos no que essas revelações diferem, e por que laço se ligam uma à outra.
21. – MOISÉS, na qualidade de profeta, revelou aos homens   o conhecimento de um Deus único, soberano, senhor e Criador de  todas  as  coisas;  promulgou a lei do Sinai e lançou os fundamentos da verdadeira fé; na qualidade de homem, foi o legislador do povo pelo qual essa lei primitiva, se depurando, deveria um dia se difundir por sobre toda a Terra.
a das penas e recompensas que esperam o homem depois da morte. (ver Revista Espírita, 1861, páginas 90 e 280).
23. – A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de que ela é a fonte primeira, a pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista, todo novo, sob o qual fez considerar a Divindade. Não é mais o Deus terrível, ciumento, vingativo, de Moisés, o Deus impiedoso que rega a terra com sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio de povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga aqueles que poupam as vítimas; não é mais o Deus injusto que pune todo um povo pela falta de seu chefe, que se vinga do culpado sobre a pessoa do inocente, que castiga as crianças pela falta de seu pai; mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansuetude e de misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido, e dá a cada um segundo as suas obras; não é mais o Deus de
um único povo privilegiado, o Deus dos exércitos presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra o Deus dos outros povos, mas o Pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção sobre todos os filhos e os chama a todos para si; não é mais o Deus que recompensa e pune apenas pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na servidão dos povos rivais e na multiplicidade da descendência, mas que diz aos homens: "A vossa verdadeira pátria não é este mundo, ela está no reino celeste: será aí que os humildes de coração serão elevados e que os orgulhosos serão rebaixados." Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena pagar olho por olho, dente por dente, mas o Deus de misericórdia que diz: "Perdoai as ofensas, se quereis que vos seja perdoado; fazei o bem em troca do mal; não façais a outrem o que não quereis que vos façam." Não é mais o Deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob as mais rigorosas penas, a maneira pela qual quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande que considera o pensamento e não se honra com a forma. Este não é mais, enfim, o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.
torturas; as que dele fazem um Deus parcial e ciumento são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, segundo o crêem mais ou menos corrompido pelas fraquezas e mesquinharias humanas.
25. – Toda a doutrina do Cristo está fundada sobre o caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa de salvação, e dizer: Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao vosso próximo como a vós mesmos; aí está toda a lei e todos os profetas, e não há outra. Sobre esta crença somente, pôde estabelecer o princípio da igualdade dos homens diante de Deus, e da fraternidade universal. Mas era possível amar esse Deus de Moisés? Não; não se poderia senão temê-lo.
Esta revelação dos verdadeiros atributos da Divindade,
junto à imortalidade da alma e da vida futura, modificou profundamente as relações mútuas dos homens, lhes impôs novas obrigações, fê-los encarar a vida presente sob uma outra luz; devera, por isso mesmo, reagir sobre os costumes e as relações sociais. Incontestavelmente, pelas suas conseqüências, é esse o ponto capital da revelação do Cristo, e do qual não se tem compreendido bastante a importância; é lamentável dizê-lo, é também o ponto do qual se está mais afastado, o que mais se tem ignorado na interpretação de seus ensinos.
26. – Entretanto, o Cristo acrescentou: "Muitas das coisas que vos digo, não podeis ainda compreendê-las, e tenho, para vos dizer, muitas outras que não compreenderíeis; por isso vos falo por parábolas; mais tarde porém, vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas." (João, cap. XIV; XVI; Mat. cap. XVII).
que todas as coisas deveriam ser restabelecidas; não se restabelece senão aquilo que foi desfeito.
27. – Por que chama ele ao novo Messias de Consolador? Esse nome, significativo e sem ambigüidade, é toda uma revelação. Previa, pois, que os homens teriam necessidade de consolações, o que implicaria a insuficiência daquelas que encontrassem nas crenças que se formassem. Nunca o Cristo foi mais claro e mais explícito do que nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas prestaram atenção, talvez porque se tem evitado pô-las em evidência, e aprofundar-lhes o sentido profético.
28. – Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensinamento de maneira completa, foi porque faltavam aos homens conhecimentos que estes só poderiam adquirir com o tempo, e sem os quais não poderiam compreendê-lo; há coisas que teriam parecido um contra-senso no estado dos conhecimentos
de então. Por completar os seus ensinamentos, deve-se, pois entender no sentido de explicar e desenvolver, bem mais do que no sentido de acrescentar verdades novas, porque tudo neles se encontra em germe; falta somente a chave para apreender o sentido de suas palavras.
29. – Mas quem ousa permitir-se interpretar as Escrituras Sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias, senão os teólogos?
Quem ousa? A ciência, primeiro, que não pede permissão a ninguém para dar a conhecer as leis da Natureza, e salta, de pés juntos, sobre os erros e os preconceitos. Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todo mundo, e as Escrituras não são mais a arca santa na qual ninguém ousava tocar os dedos sem o risco de ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar a dos teólogos, e por esclarecidos que fossem os da Idade Média, e em particular os Pais da Igreja, não estavam o bastante, entrentanto, para não condenarem, como heresia, o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e, sem remontar tão alto, os de hoje não lançaram anátema aos períodos de formação da Terra?
reveladas pela ciência; eis porque os próprios teólogos puderam, de boa-fé, se enganar sobre o sentido de certas palavras e de certos fatos do Evangelho. Querendo, a todo preço, nele encontrarem a confirmação de um pensamento preconcebido, volteavam sempre no mesmo círculo, sem deixarem o   seu  ponto  de vista, de tal sorte que não viam senão aquilo que queriam ver. Por sábios teólogos que fossem, não podiam compreender as causas dependentes de leis que não conheciam.
Mas quem será o juiz das interpretações diversas e, freqüentemente, contraditórias, dadas fora da teologia? – O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que fatos novos e novas leis venham a se revelar, saberão separar os sistemas utópicos da realidade; ora, a ciência faz conhecer certas leis; o Espiritismo faz conhecer outras; umas e outras são indispensáveis à compreensão dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até o Cristianismo. Quanto à teologia, ela não poderá, judiciosamente, alegar as contradições da ciência, quando  não  está  de  acordo consigo mesma.
30. – O ESPIRITISMO, tomando seu ponto de partida das próprias palavras do Cristo, como este hauria a sua de Moisés, é uma conseqüência direta da sua doutrina.
À idéia vaga da vida futura acrescenta a revelação do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço, e, com isto, fixa a crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.
Definiu os laços que unem a alma ao corpo e levantou o véu que escondia, aos homens, os mistérios do nascimento e da morte.
Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que sofre temporariamente, e vê, por toda a parte, a justiça de Deus.
Sabe que a alma progride, sem cessar, através de uma série de existências, até que haja alcançado o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus.
progredir, em virtude do seu livre arbítrio; que todas são da mesma essência, e que não há entre elas senão a diferença do progresso realizado; que todas têm a mesma destinação e atingirão o mesmo objetivo; mais ou menos prontamente segundo o seu trabalho e a sua boa vontade.
Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas do que as outras; que Deus não as tem criado privilegiadas e dispensadas do trabalho imposto às outras para progredirem; que não há seres perpetuamente devotados ao mal e ao sofrimento; que os designados sob o nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que fazem o mal no estado de Espírito, como faziam no estado de homens, mas que avançarão e se melhorarão; que os anjos ou puros Espíritos não são seres criados à parte na criação, mas Espíritos que alcançaram o objetivo, depois de terem seguido a fieira do progresso; que, assim, não há criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a criação resulta da grande lei de unidade que rege o Universo, e que todos os seres gravitam para um objetivo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos às custas dos outros, todos sendo os filhos das suas obras.
31. – Pelas relações que o homem pode agora estabelecer com aqueles que deixaram a Terra, tem não somente  a  prova material da existência e da individualidade da alma, mas compreende a solidariedade que liga os vivos  e  os  mortos deste mundo, e dos deste mundo com os  de  outros   mundos.  Conhece a sua situação no mundo dos Espíritos; segue-os em suas migrações; testemunha as suas alegrias e seus infortúnios; sabe por que são felizes ou infelizes,  e  a  sorte que o espera, a ele mesmo, segundo o bem ou o mal que faça. Essas relações iniciam o homem na vida futura,  que ele pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro não é mais uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática. Desde  então,  a   morte não tem   mais nada de aterrorizante, porque  é  para  ele  a   libertação, a porta da verdadeira vida.
um sofre as conseqüências diretas e naturais de suas faltas; dito de outro modo, que é punido por onde tem pecado; que essas conseqüências duram tão longo tempo quanto as causas que as produziram; que, assim, o culpado sofreria eternamente se persistisse eternamente no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um melhorar-se, cada um pode, em virtude do seu livre arbítrio, prolongar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre dos seus excessos tão longo tempo enquanto não lhes põe termo.
33. – Se a razão repele, por incompatível com a bondade de Deus, a idéia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, freqüentemente infligidas por uma única falta; os suplícios do inferno que não pode abrandar o mais ardente e o mais sincero arrependimento, ela se inclina diante dessa justiça distributiva e imparcial, que leva tudo em conta, não fecha nunca a porta do retorno, e estende, sem cessar, a mão ao náufrago, em lugar de empurrá-lo para o abismo.
34. – A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo colocou no Evangelho, mas sem defini-lo mais do que muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido de que lhe demonstra a realidade e a necessidade para o progresso. Por essa lei o homem explica todas as aparentes anomalias que a vida humana apresenta; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma a vida abreviada; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela antiguidade do Espírito que tem, mais ou menos, aprendido e progredido, e que traz, em renascendo, o que adquiriu em suas existências anteriores. (nº 5).
35. – Com a doutrina da criação da alma em cada nascimento, vem-se cair no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nada os liga, os laços de família são puramente carnais: não são solidários com um passado em que não existiam; com a doutrina do nada depois da morte, toda relação cessa com a vida; eles não são solidários quanto ao futuro. Pela reencarnação, são solidários quanto ao passado e quanto ao futuro; as suas relações se perpetuam no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade tem por base as próprias leis da Natureza; o bem tem um objetivo, o mal as suas conseqüências inevitáveis.

36. – Com a reencarnação, caem os preconceitos de raças e de castas, uma vez que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grande senhor ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhum deles que ultrapasse, em lógica, o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação repousa sobre uma lei da Natureza, o princípio da fraternidade universal, ela repousa sobre a mesma lei da igualdade de direitos sociais, e, por conseguinte, a da liberdade.
37. – Tirai ao homem o espírito livre, independente, sobrevivente à matéria, e fareis dele uma máquina organizada, sem objetivo, sem responsabilidade, sem outro freio que o da lei civil, e próprio para ser explorado como um animal inteligente. Não esperando nada depois da morte, nada o detém para aumentar os gozos do presente; se sofre, não tem em perspectiva senão o desespero e o nada por refúgio. Com a certeza do futuro, a de encontrar aqueles a quem amou, o medo de rever aqueles a quem ofendeu, todas as suas idéias mudam. O Espiritismo, não fizesse senão tirar o homem da dúvida com respeito à vida futura, teria feito mais pelo seu adiantamento moral do que todas as leis disciplinares que o freiam algumas vezes, mas não o transformam.
não tenha mais necessidade da vida corporal, e possa viver, exclusivamente, a vida espiritual, eterna e feliz.
Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente traz, em renascendo, qualidades inatas, do mesmo modo que aquele que progrediu intelectualmente traz idéias inatas; está identificado com o bem; pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por assim dizer, sem nele pensar. Quem está obrigado a combater as suas más tendências está ainda na luta: o primeiro já venceu, o segundo está em vias de vencer. Há, pois, virtude original, como há saber original, e pecado, ou melhor, vício original.
39. – O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e a ação deles sobre a matéria. Demonstrou a existência do perispírito, suspeitado desde a antiguidade, e designado por São Paulo sob o nome de Corpo espiritual, quer dizer, de corpo fluídico da alma depois  da destruição do corpo tangível. Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma; que é um dos elementos  constitutivos do ser humano; que é o veículo de transmissão  do  pensamento, e que, durante a vida do corpo, serve de laço entre o Espírito e a matéria. O perispírito desempenha um papel tão importante no organismo, e numa multidão de afecções, que se liga à fisiologia tão bem quanto à psicologia.
brenatural, e por conseqüência, a fonte da maioria das superstições. Se fez crer na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, impediu de crer em muitas outras das quais demonstra a impossibilidade e a irracionalidade.
41. – O Espiritismo, bem longe de negar ou de destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza que revela, tudo o que o Cristo disse e fez; traz a luz sobre os pontos obscuros dos seus ensinamentos, de tal sorte que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem, sem esforço, com a ajuda do Espiritismo, e as admitem; vêem melhor a sua importância, e podem separar a realidade da alegoria; o Cristo lhes parece maior: não é mais simplesmente um filósofo, é um Messias divino.
42. – Se se considera, por outro lado, a força moralizadora do Espiritismo pelo objetivo que assinala para todas as ações da vida, pelas conseqüências do bem e do mal que faz tocar com o dedo; a força moral, a coragem, as consolações que dá nas aflições por uma inalterável confiança no futuro, pelo pensamento de ter perto de si os seres a quem amou, a segurança de revê-los, a possibilidade de conversar com eles, enfim, pela certeza de que tudo o que se faz, de que tudo o que se adquire em inteligência, em ciência, em moralidade, até a última hora da vida, nada está perdido, que tudo aproveita ao adiantamento, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo com respeito ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade quem preside ao grande movimento de regeneração, a promessa do seu advento se encontra realizada, porque, pelo fato, é ele o verdadeiro Consolador (1).

(1) Muitos pais de família deploram a morte prematura de crianças, para cuja educação fizeram grandes sacrifícios, e dizem a si mesmos que tudo isso é pura perda. Com o Espiritismo, não lamentam mais esses sacrifícios, e estariam prontos a fazê-los, mesmo com a certeza de verem morrer seus filhos, porque sabem que, se estes últimos não aproveitam essa educação no presente, ela servirá, em primeiro lugar, para seu adiantamento como Espíritos; depois, que isso será igualmente adquirido para uma nova existência, e que, quando retomarem, terão uma bagagem intelectual que os tornará mais aptos para adquirirem novos conhecimentos. Tais são essas crianças que trazem, em nascendo, idéias inatas, que sabem, por assim dizer, sem terem necessidade de aprender. Se os pais não têm a satisfação imediata de verem seus filhos 
43. – Se a esses resultados se acrescenta a rapidez extraordinária da propagação do Espiritismo, apesar de tudo o que se fez para abatê-lo, não se pode discordar de que a sua vinda tenha sido providencial, porque triunfa de todas as forças e de toda a má vontade dos homens. A facilidade com a qual ele é aceito por um tão grande número, e isso sem constrangimento, sem outros meios senão o poder da idéia, prova que responde a uma necessidade, a de crer em alguma coisa, depois do vazio cavado pela incredulidade, e que, conseqüentemente, veio ao seu tempo.
44. – Os aflitos são em grande número; não é, pois, surpreendente que tantas pessoas acolham uma doutrina que consola, de preferência às doutrinas que desesperam, porque é aos deserdados, mais do que aos felizes do mundo, que se dirige o Espiritismo. O enfermo vê chegar o médico com mais alegria do que aquele que está bem; ora, os aflitos são os enfermos, e o Consolador é o médico.
Vós que combateis o Espiritismo, se quereis que renunciemos a ele para seguir-vos, dai, pois, mais e melhor do que ele; curai, com maior segurança, as feridas da alma. Dai mais consolações, mais satisfações ao coração, esperanças mais legítimas, certezas maiores; fazei do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; mas não penseis em destruí-lo, vós, com a perspectiva da nada; vós, com a alternativa das chamas do inferno ou da beata e inútil contemplação perpétua.
45. – A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda no Cristo; a terceira não está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é coletiva; está aí um caráter essencial de uma grande importância. Ela é coletiva no sentido de que não foi feita como privilégio a pessoa alguma; que ninguém, por conseguinte, pode dela se

aproveitarem essa educação, dela gozarão, certamente, mais tarde, seja como Espíritos, seja como homens. Talvez eles sejam de novo os pais dessas mesmas crianças, de quem se dirá felizmente dotadas pela Natureza, e que devem as suas aptidões a uma precedente educação; do mesmo modo, se os filhos acabam mal pela negligência dos seus pais, estes podem ter que sofrer, mais tarde, pelos dissabores e desgostos que lhes suscitarão, em uma nova existência.
dizer o profeta exclusivo. Foi feita, simultaneamente, sobre toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades, e de todas as condições, desde o mais alto da escala, segundo esta predição referida pelo autor dos Atos dos Apóstolos: "Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei de meu espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vossos velhos terão sonhos." (Atos, cap. II, vers. 17 e 18). Não saiu de nenhum culto especial, a fim de servir, a todos, um dia, de ponto de reunião (1).
46. – As duas primeiras revelações, sendo o produto de um ensinamento pessoal, foram, forçosamente, localizadas, quer dizer, ocorreram sobre um único ponto, em torno do qual a idéia se espalhou pouco a pouco; mas necessitou muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem mesmo invadi-lo inteiramente. A terceira tem de particular que, não estando personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes, todos tornando-se centros ou focos de irradiação. Multiplicando-se esses centros, seus raios se encontram pouco a pouco, como os círculos formados por uma multidão de pedras lançadas na água; de tal sorte que, em dado tempo, acabarão por cobrir a superfície inteira do globo.
Tal é uma das causas da rápida propagação da Doutrina. Se ela tivesse num único ponto, se fosse obra exclusiva de um homem, teria formado seita ao seu redor; mas talvez decorresse meio século antes que tivesse alcançado os limites do país onde nascera, ao passo que, dez anos depois, tem marcos plantados de um pólo ao outro.
47. – Esta circunstância, inaudita na história das doutrinas, deu a esta uma força excepcional e um poder de ação irresistível; com efeito, se a reprimem num ponto, em um país, é materiamente impossível reprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Por um lugar onde seja entravada, haverá mil ao lado, onde ela florescerá. Ainda mais, se a atingem num indivíduo, não se podem atingi-la nos Espíritos que lhe são a fonte. Ora, como os Espíritos estão por toda a parte, e haverá deles sempre, se, por impossível, se chegasse a abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque repousa sobre um fato, e esse fato está na Natureza, e não se podem suprimir as leis da Natureza. Eis do que devem se persuadir os que sonham com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista Espírita, fev. 1865, pág. 38: Perpetuidade do Espiritismo).
48. – Entretanto, disseminados esses centros, teriam podido permanecer muito tempo isolados uns dos outros, confinados que estão alguns em países longínquos. Entre eles seria preciso um traço de união que os pusesse em comunhão de pensamentos com os seus irmãos em crença, dando-lhes a conhecer o que se fazia em outra parte. Esse traço de união, que teria faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que vão por toda parte, que condensam, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensinamento, dado por toda parte, sob formas múltiplas e em línguas diversas.
49. – As duas primeiras revelações não poderiam ser senão o resultado de um ensinamento direto; deviam impor-se à fé pela autoridade da palavra do Mestre, não estando os homens bastante avançados para concorrerem na sua elaboração.
despótica; não admite discussão e se impõe ao povo pela força. A de Jesus, essencialmente conselheira; é livremente aceita e não se impõe senão pela persuasão; foi controvertida mesmo durante a vida do seu fundador, que não desdenhava discutir com os seus adversários.
50. – A terceira revelação veio numa época de emancipação e de maturidade intelectual, onde a inteligência desenvolvida não pode reduzir-se a um papel passivo, onde o homem não aceita nada cegamente, mas quer ver onde é conduzido, saber o por quê e o como de cada coisa, devia ser, ao mesmo tempo, o produto de um ensinamento e o fruto do trabalho de pesquisa e do livre exame. Os Espíritos não ensinam senão o exatamente necessário para colocar sobre o caminho da verdade, mas abstêm-se de revelarem o que o homem pode encontrar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e de tudo submeter ao cadinho da razão, deixando-o mesmo, freqüentemente, adquirir experiência às suas custas. Dão-lhe o princípio, os materiais; cabe-lhe tirar deles proveito e pô-los em prática (nº 15).
cada um estaria imobilizado em sua revelação parcial, crendo ter toda a verdade, por falta de saber que, em cem outros lugares, obtinha-se mais ou melhor.
52. – Por outro lado, convém notar que nenhuma parte do ensinamento espírita foi dada de maneira completa; ele diz respeito a tão grande número de observações, em assuntos tão diversos, que exigem ou conhecimentos ou aptidões medianímicas especiais, que teria sido impossível reunir, em um mesmo ponto, todas as condições necessárias. Devendo o ensinamento ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os assuntos de estudo e de observação, como em certas fábricas a confecção de cada parte de um mesmo objeto é dividida entre diferentes operários.
A revelação foi, assim, feita parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários, e é dessa maneira que continua ainda neste momento, porque udo não está revelado. Cada centro encontra, nos outros centros, o complemento daquilo que obtém, e foi o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que constituíram a Doutrina Espírita.

53. – Desse estado de coisas, resultou uma dupla corrente de idéias: uma indo das extremidades para o centro, as outras retornando do centro para a periferia. Foi assim que a Doutrina prontamente marchou para a unidade, malgrado a diversidade das fontes de onde ela emanou; que os sistemas divergentes tombaram, pouco a pouco, pelo fato do seu isolamento, diante da ascendência da opinião da maioria, por falta de nela encontrar ecos simpáticos. Uma comunhão de pensamentos foi, então, estabelecida entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, eles se compreendem e simpatizam de uma extremidade à outra do mundo.
Os Espíritas se acharam mais fortes e lutaram com mais coragem, marcharam com passo mais seguro, quando não se viram mais isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um laço que os unia à grande família; os fenômenos dos quais eram testemunhas não lhes pareciam mais estranhos, anormais, contraditórios, quando puderam ligá-los às leis gerais de

(1) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez o Espiritismo entrar no caminho filosófico, pela dedução das conseqüências morais dos fatos, que abordou todas as partes da Doutrina, tocando as mais importantes questões que ela levanta, foi, desde a sua aparição, o ponto de reunião para o qual, espontaneamente, convergiam os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, estacionado, até aí, no domínio das experiências de curiosidade. Se esse livro conquistou a simpatia da maioria, foi porque era a expressão do sentimento dessa mesma maioria, e respondida às suas aspirações; foi também porque cada um nele encontrou a confirmação e uma explicação racional naquilo que obtinha em particular. Se estivesse em desacordo com o ensinamento geral dos Espíritos, não haveria tido nenhum crédito, e cairia prontamente no esquecimento. Ora, a quem se reuniu? Não foi ao homem, que nada é por si mesmo, agente que morre e desaparece, mas à idéia, que não perece quando emana de uma força superior à do homem.
Essa concentração espontânea de forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único do mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem, ao mesmo tempo, os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que fizeram nascer a Doutrina, os resultados morais, os devotamentos e os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas sobre peças autênticas. Em presença desses testemunhos irrecusáveis, em que se tornarão, na continuidade, todas as falsas alegações, as difa
harmonia, abarcar de um golpe de vista o edifício e verem, em todo esse conjunto, um objetivo grande e humanitário (1).
Mas como saber se um princípio é ensinado por toda parte ou se não é senão o resultado de uma opinião pessoal? Os grupos isolados, não estando no caso de saberem o que se diz em outra parte, era necessário que um centro reunisse todas as instruções para fazer uma espécie de escrutínio, e levar ao conhecimento de todos a opinião da maioria (2).
54. – Não há nenhuma ciência que, em todas as suas partes, tenha saído do cérebro de um homem; todas, sem exceção, são produtos de observações sucessivas apoiando-se sobre as observações precedentes, como sobre um ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os

(1) Um testemunho significativo, tão notável quanto tocante, dessa comunhão de pensamentos que se estabeleceu entre os Espíritas pela conformidade das crenças, são os pedidos de preces que nos vêm dos mais distantes países, desde o Peru às extremidades da Ásia, da parte de pessoas de religiões e de nacionalidades diversas, e que jamais vimos. Não está aí o prelúdio da grande unificação que se prepara? A prova das bases sérias que, por toda parte, toma o Espiritismo?
É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de fazer cisão, proclamando princípios divergentes, assim como aqueles que, por razões de amor-próprio ou outras quaisquer, não querendo parecer sujeitarem-se à lei comum, se consideraram bastante fortes para caminharem sozinhos, com bastante luzes para se absterem de conselhos, nenhum chegou a constituir uma idéia preponderante e viável; todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Como poderia ser de outro modo, desde que, para se distinguirem, em lugar de se esforçarem em dar maior soma de satisfações, rejeitaram os princípios da Doutrina, precisamente aquilo que nela se faz o mais poderoso atrativo, o que há de mais consolador, de mais encorajante e de mais racional? Se tivessem compreendido a força dos elementos morais que constituíram a unidade, não estariam embalados por uma ilusão quimérica; mas, tomando o seu pequeno círculo pelo universo, não viram nos adeptos senão uma sociedade que poderia ser derrubada, facilmente, por uma contra-sociedade. Era enganar-se estranhamente sobre os caracteres essenciais da Doutrina, e esse erro não podia conduzir senão a decepções; em lugar de romper a unidade, eles quebraram o único laço que poderia dar-lhes a força e a vida. (Ver a Revista Espírita, abril 1866, págs. 106 e 111: O Espiritismo sem os Espíritos; o Espiritismo independente).
(2) Tal é o objetivo das nossas publicações, que podem ser consideradas como o resultado desse escrutínio. Todas as opiniões nelas são discutidas, mas as questões não são enunciadas em princípios, senão depois de terem recebido a consagração de todos os controles, os únicos que podem dar-lhes força de lei, e permite afirmá-los. Eis porque não preconizamos, levianamente, nenhuma teoria, e é nisso que a Doutrina, procedendo do ensinamento geral, não é o produto de um sistema preconcebido; é também o que faz a sua força e assegura o seu futuro.

Espíritos procederam com o Espiritismo; por isso, seu ensinamento está graduado; não abordam as questões senão à medida que os princípios sobre os quais devem se apoiar estejam suficientemente elaborados e que a opinião esteja madura para assimilá-los. Há mesmo que se notar que, todas as vezes que os centros particulares quiseram abordar questões prematuras, não obtiveram senão respostas contraditórias, não concludentes. Quando, ao contrário, está chegado o momento favorável, o ensinamento se generaliza e se unifica na quase universalidade dos centros.
Há, todavia, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências, uma diferença capital: estas não atingiram o ponto onde chegaram senão depois de longos intervalos, ao passo que bastaram alguns anos ao Espiritismo, se não para atingir o ponto pelo menos para recolher uma soma de observações bastante grande para constituir uma doutrina. Isso deve-se à multidão incalculável de Espíritos que, pela vontade de Deus, se manisfestaram simultaneamente trazendo, cada um, o contingente dos seus conhecimentos. Disso resultou que todas as partes da doutrina, em lugar de serem elaboradas sucessivamente, durante vários séculos, o foram quase simultaneamente em alguns anos, que bastaram para agrupá-las e para delas formar um todo.
Deus quis que assim fosse, primeiro para que o edifício chegasse mais depressa ao topo; em segundo porque se pôde, pela comparação, ter um controle, por assim dizer, imediatamente e permanente na universalidade do ensinamento, cada parte não tendo valor e autoridade senão pela sua conexão com o conjunto, todas devendo harmonizarem-se, encontrar o seu lugar na ordem geral, e chegar cada uma a seu tempo.
Não confiando a um único Espírito o cuidado da promulgação da Doutrina, Deus quis, por outro lado, que o menor como o maior entre os Espíritos, e entre os homens, levasse sua pedra ao edifício, a fim de estabelecer, entre eles, um laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas as doutrinas saídas de uma única fonte.
De outra parte, cada Espírito, assim como cada homem, não tendo senão uma soma limitada de conhecimentos, individualmente não estavam habilitados a tratarem ex professo as inumeráveis questões nas quais toca o Espiritismo; eis, 
igualmente, porque a Doutrina, para cumprir os objetivos do Criador, não poderia ser obra de um único Espírito, nem de um único médium; não poderia sair senão da coletividade dos trabalhos, controlados uns pelos outros (1).
55. – O último caráter da revelação espírita, e que ressalta das próprias condições nas quais está feita, é que, apoiando-se sobre fatos, não pode ser senão essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, contrai aliança com a ciência que, sendo a exposição das leis da Natureza em certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam  Deus em lugar de diminuí-lo; elas não destróem senão o que os homens estabeleceram sobre as idéias falsas que fizeram de Deus.
O Espiritismo não coloca, pois, como princípio absoluto, senão o que está demonstrado como evidência, ou que ressalta logicamente da observação. Tocando em todos os ramos da economia social, às quais presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, chegadas ao estado de verdades práticas, e saídas do domínio da utopia; sem isso se suicidaria; cessando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. O Espiritismo, caminhando com o progressso, não será jamais ultrapassado, porque se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, modificar-se-á sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita (2).
56 – Qual a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, uma vez que não é outra senão a do Cristo? O homem tem necessidade de uma revelação e não pode encontrar em si mesmo tudo o que lhe é necessário para se conduzir?

(1) Ver em O Evangelho Segundo o Espiritismo, introdução, pág. VI, e Revista Espírita abril 1864, pág. 90: Autoridade da Doutrina Espírita; controle universal do ensinamento dos Espíritos.
(2) Diante de declarações tão claras e tão categóricas, como as que estão contidas neste capítulo, caem todas as alegações de tendência ao absolutismo e à autocracia dos princípios, todas as falsas assimilações que pessoas prevenidas ou mal informadas, prestam à Doutrina. Estas declarações, aliás, não são novas; nós as temos repetido bastante em nossos escritos para não deixar nenhuma dúvida a esse respeito. Nos assinalam, por outro lado, o nosso verdadeiro papel, o único que ambicionamos: o de trabalhador.
Sob o ponto de vista moral, Deus, sem dúvida, deu ao homem um guia na sua consciência, que lhe diz: "Não faça a outrem o que não queres que se te faça." A força natural está certamente inscrita no coração dos homens, mas todos sabem lê-la? Nunca desprezaram os seus sábios preceitos? Que fizeram da moral do Cristo? Como a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se tornou uma letra morta, uma bela teoria, boa para os outros e não para si? Censurais a um pai por repetir dez vezes, cem vezes as mesmas instruções aos seus filhos, se não as aproveitam? Por que Deus faria menos do que um pai de família? Por que não enviaria, de tempos em tempos, entre os homens, mensageiros especiais encarregados de chamá-los aos seus deveres, de reconduzi-los ao bom caminho quando dele se afastam, de abrirem os olhos da inteligência àqueles que os têm fechados, como os homens mais avançados enviam missionários entre os selvagens e os bárbaros?
Os Espíritos não ensinam outra moral senão a do Cristo, pela razão de que não há outra melhor. Mas, então, para que servem os seus ensinamentos, uma vez que não dizem senão o que nós sabemos? Poder-se-ia dizer tanto da moral do Cristo, que foi ensinada quinhentos anos antes dele por Sócrates e Platão, e em tempos quase idênticos; de todos os moralistas, que repetem a mesma coisa em todos os tons e sob todas as formas. Pois bem! os Espíritos vêm simplesmente aumentar o número dos moralistas, com a diferença que, manifestando-se em toda parte, se fazem ouvir tanto na choupana quanto no palácio, pelos ignorantes como pelas pessoas instruídas.
O que o ensinamento dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que ligam os mortos e os vivos, que completam as noções vagas que havia dado da alma, de seu passado e de seu futuro, e que dão por sanção à doutrina as próprias leis da Natureza. Com a ajuda das novas luzes trazidas pelo Espiritismo e os Espíritos, o homem compreende a solidariedade que liga todos os seres; a caridade e a fraternidade tornam-se necessidade social; faz por convicção o que não fazia senão por dever e o faz melhor.
Quando os homens praticarem a moral do Cristo, só então poderão dizer que não têm mais necessidade de moralistas, encarnados ou desencarnados; mas, então, também Deus não mais lhos enviará.
57. – Uma das mais importantes questões, entre as que estão colocadas no alto deste capítulo é esta: Qual é a autoridade da revelação espírita, uma vez que emana de seres cujas luzes são limitadas, e que não são infalíveis?
A objeção seria séria se essa revelação não consistisse senão do ensinamento dos Espíritos, se devêssemos tê-la deles exclusivamente e aceitá-la de olhos fechados; ela é sem valor desde o instante em que o homem lhe traz o concurso de sua inteligência e de seu julgamento; que os Espíritos se limitam a colocá-lo no caminho das deduções que pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações e suas inumeráveis variedades são fatos; o homem os estuda, neles procura a lei; e é ajudado, neste trabalho, pelos Espíritos de todas as ordens, que são antes colaboradores do que reveladores, no sentido usual da palavra; submete as suas declarações ao controle da lógica e do bom senso; desta maneira, ganha conhecimentos especiais que eles oferecem na sua posição, sem abdicarem do uso da sua própria razão.
Os Espíritos, não sendo outros senão as almas dos homens, em nos comunicando com eles, não saímos da Humanidade, circunstância capital a se considerar. Os homens de gênio, que foram a luz da Humanidade saíram, pois, do mundo dos Espíritos, como nele reentraram deixando a Terra. Desde que os Espíritos podem se comunicar com os homens, esses mesmos gênios podem lhes dar instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a forma corpórea; podem nos instruir depois da sua morte como o fizeram em sua vida; são invisíveis em lugar de serem visíveis, eis toda a diferença. A sua experiência e o seu saber não devem ser menores, e se a sua palavra, como homens, tinha autoridade, não a deve ter menos porque estão no mundo dos Espíritos.
o proveito que os seus ensinamentos comportam; ora, todos, quaisquer que sejam, podem nos ensinar ou revelar coisas que ignoramos, e que, sem eles, não saberíamos.
59. – Os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, incontestavelmente, mas cuja ação é restrita e necessariamente lenta em se propagar. Que um só dentre eles, fosse mesmo Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, viesse, nestes últimos tempos, revelar aos homens o estado do mundo espiritual, quem teria aprovado a verdade de suas assertivas neste tempo de ceticismo? Não o teriam considerado como um sonhador ou um utopista? E, em se admitindo que estivesse com a Verdade absoluta, os séculos teriam se escoado antes que suas idéias fossem aceitas pelas massas. Deus, em sua sabedoria, não quis que fosse assim; quis que o ensinamento fosse dado pelos próprios Espíritos, e não pelos encarnados, a fim de convencer de sua existência, e que ocorreram simultaneamente em toda a Terra, seja para propagá-lo mais rapidamente, seja para que encontrasse, na coincidência do ensinamento, uma prova da verdade, tendo, cada um, os meios de se convencer por si mesmo.
60. – Os Espíritos não vêm para livrar o homem do trabalho do estudo e das pesquisas; não lhe trazem nenhuma ciência pronta; o que pode encontrar, ele mesmo, deixam-no às suas próprias forças; é o que os Espíritas sabem perfeitamente hoje. Desde muito tempo, a experiência demonstrou o erro da opinião que atribuía, aos Espíritos, todo o saber e toda a sabedoria, e que bastava dirigir-se ao primeiro Espírito que chegasse para conhecer todas as coisas. Saídos da Humanidade, os Espíritos lhe são uma das faces; como sobre aTerra, os há superiores e vulgares; muitos deles sabem, pois, científica e filosoficamente, menos do que certos homens; dizem o que sabem, nem mais nem menos; como entre os homens, os mais avançados podem nos informar sobre mais coisas, dar-nos conselhos mais judiciosos do que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é dirigir-se à forças sobrenaturais mas aos semelhantes, àqueles mesmos a quem nos teríamos dirigido em seu viver: aos parentes, aos amigos, ou aos indivíduos mais esclarecidos do que nós. Eis do que importa se persuadir e o ignoram aqueles que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem uma idéia completamente falsa sobre a natureza do mundo dos Espíritos e das relações de além-túmulo.
61. – Qual é, pois, a utilidade dessas manifestações ou, querendo, dessas revelações, se os Espíritos não sabem mais do que nós, ou se não dizem tudo o que sabem?
Primeiro, como o dissemos, eles se abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas que não lhes é permitido revelarem; porque o nosso grau de adiantamento não comporta. Mas, isso à parte, as condições da nova existência alargam o círculo das suas percepções; vêem o que não viam na Terra, livres dos entraves da matéria, liberados dos cuidados da vida corporal, julgam as coisas de um ponto de vista mais elevado; e, por isso mesmo, mais sadiamente; a sua perspicácia abarca um horizonte mais vasto; compreendem os seus erros, retificam as suas idéias e se desembaraçam dos preconceitos humanos.
É nisto que consiste a superioridade dos Espíritos sobre a humanidade corporal, e que seus conselhos podem ser, com relação ao seu grau de adiantamento, mais judiciosos e mais desinteressados do que os dos encarnados. O meio em que se encontram lhes permite, por outro lado, nos iniciar nas coisas da vida futura, que ignoramos, e que não podemos aprender naquela em que estamos. Até hoje, o homem não havia criado senão hipóteses sobre o seu futuro; eis porque suas crenças, sobre esse ponto, ficaram divididas em sistemas tão numerosos e tão divergentes, desde o nihilismo até às fantásticas concepções do inferno e do paraíso. Hoje, são as testemunham oculares, os próprios atores da vida de além-túmulo, que vêm dizer o que ela é, e os únicos que poderiam fazê-lo. Essas manifestações, portanto, serviram para nos dar a conhecer o mundo invisível que nos rodeia, e que não supúnhamos; e só esse conhecimento seria de uma importância capital, supondo-se que os Espíritos fossem incapazes de algo nos ensinarem a mais.
senão para vos fazer conhecer os costumes dos camponeses. Ocorre o mesmo com as relações com os Espíritos, onde o menor pode servir para nos ensinar alguma coisa.
62. – Uma comparação vulgar fará compreender, ainda melhor, a situação.
Um navio, carregado de emigrantes, parte para um destino longínquo; carrega homens de todas as condições, parentes e amigos daqueles que ficam. Ouve-se que esse navio naufragou;  nenhum   traço dele restou, nenhuma notícia chegou sobre a sua sorte; pensa-se que todos os viajantes pareceram e o luto está em todas as famílias. Entretanto, a tripulação toda, sem exceção de um único homem, aportou a uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde todos vivem felizes, sob um céu clemente, mas isso é ignorado. Ora, eis que um dia um outro navio aporta a essa terra e aí encontra todos os náufragos sãos e salvos. A feliz notícia se espalha com a rapidez de um raio; cada um diz: "Nossos amigos não estão perdidos!" e rendem graças a Deus por isso. Não podem se ver, mas se correspondem; trocam testemunhos de afeições, e eis que a felicidade sucede à tristeza.
Tal é a imagem da vida terrestre e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna; esta, semelhante ao segundo navio, nos traz a boa notícia da sobrevivência daqueles que nos são caros, e a certeza de reencontrá-los um dia; a dúvida sobre a sua sorte e sobre a nossa não existe mais; o desencorajamento se apaga diante da esperança.
Mas outros resultados vêm fecundar essa revelação. Deus, julgando a Humanidade madura para penetrar o mistério do seu destino e contemplar, a sangue-frio, notícias maravilhosas, permitiu que o véu, que separa o mundo visível do mundo invisível, fosse levantado. O fato das manifestações nada tem de extra-humano; é a Humanidade espiritual que vem conversar com a Humanidade corporal e dizer-lhe:
vida terrestre nada é. A vossa visão detinha-se no túmulo, nós vos mostramos, além dele, um horizonte esplêndido. Não sabíeis porque sofríeis na Terra, agora, no sofrimento, vedes a justiça de Deus; o bem não tinha frutos aparentes para o futuro, doravante terá um objetivo e será uma necessidade; a fraternidade não era senão uma bela teoria, agora ela assenta sobre uma lei da Natureza. Sob o império da crença de que tudo termina com a vida, a imensidão está vazia, o egoísmo reina soberano entre vós, e a vossa palavra de ordem é: "Cada um por si"; com a certeza do futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, o vazio e a solidão não estão em nenhuma parte, a solidariedade liga todos os seres, para além e para aquém da tumba; é o reino de caridade com a divisa: "Cada um por todos e todos para cada um." Enfim, ao término da vida dizíeis um eterno adeus àqueles que vos são caros, agora direis: "Até logo."
Tais são, em resumo os resultados da revelação nova; ela veio encher o vazio cavado pela incredulidade, elevar as coragens abatidas pela dúvida ou pela perspectiva do nada, e dar, a todas as coisas, a sua razão de ser. Este resultado não tem importância porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da ciência, dar saber aos ignorantes, e aos preguiçosos os meios de enriquecer sem trabalho? Entretanto,  os  frutos  que o   homem deve dela retirar, não o são apenas para a vida futura; desfrutá-los-á na Terra pela transformação que essas novas crenças, necessariamente, devem  operar  em  seu caráter,  seus gostos, suas tendências, e, em conseqüência, sobre os hábitos e as relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus anunciado pelo Cristo (1).

(1) O emprego do artigo diante da palavra Cristo (do grego Christos, ungido), empregado em um sentido absoluto, é mais correto, visto que esse termo não é o nome do Messias de Nazaré, mas uma qualidade tomada substantivamente. Dir-se-á, pois, Jesus era Cristo anunciado; a morte do Cristo e não de Cristo, ao passo que se diz: a morte de Jesus e não a morte do Jesus. Em Jesus Cristo, as duas palavras reunidas formam um único nome próprio. É pela mesma razão que se diz: o Buda Gautama adquiriu a dignidade de Buda por suas virtudes e suas austeridades; a vida do Buda, como se diz: o exército do Faraó e não de Faraó; Henri IV era rei; o título de rei; a morte do rei; e não de rei.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Minha lista de blogs

Visualizações de página do mês passado

Páginas